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segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

RESENHA CINEMA: Pantera Negra (Black Panther, 2018).


PANTERA NEGRA (Black Panther, 2018) – COM SPOILERS

Direção: Ryan Coogler
Roteiro: Ryan Coogler, Joe Robert Cole
Elenco: Chadwick Boseman, Michael B. Jordan, Lupita Nyong’o, Danai Gurira, Martin Freeman, Letitia Wright, Daniel Kaluuya, Angela Bassett, Forest Whitaker, Winston Duke, Andy Serkis, Sterling K. Brown, John Kani, Florença Kasumba

OBS.: Em geral não gosto de escrever resenhas com spoilers, mas para falar de Pantera Negra, faz-se necessário falar sobre alguns acontecimentos para melhor entendimento. Então a leitura a seguir fica por sua conta e risco.

Wakanda, para muitos, é somente uma vila do terceiro mundo com problemas de desenvolvimento e com pequenas fazendas e plantações, mas não sabem o que se esconde atrás de um bem elaborado sistema de camuflagem. Wakanda é uma cidade cuja tecnologia se desenvolveu com o passar dos tempos, fazendo uso do metal mais resistente da Terra, o vibranium.
A cidade tem como seu eterno protetor o Pantera Negra. O herói é uma herança hereditária, passada de pai para filho, que este deve demonstrar seu digno do uso do poder da fera.
T’Challa (Chadwick Boseman), filho de T’Chaka (John Kani), se torna o novo rei de Wakanda após a morte de seu pai. Ele, com isso, precisa defender o legado que ganhou com o título, que é defender seu povo e não permitir que a sociedade fora da cidade tome conhecimento do que Wakanda possui, pois poderiam fazer uso equivocado de tal capacidade. Mas uma ameaça surge no horizonte quando Erik Killmonger (Michael B. Jordan) acredita que a tecnologia de Wakanda não deve ser usada somente para proteção da cidade, mas para defesa por uma igualdade social que os negros do mundo não possuem.
“Pantera Negra” é o décimo-oitavo filme do Universo Cinemático Marvel e já se torna – na minha humilde opinião – o segundo melhor filme do UCM. “Por que segundo?”, vocês podem vir a me perguntar, eu respondo que ainda considero as questões políticas discutidas em “Capitão América: O Soldado Invernal”, mais polêmicas e mais significativas.
Não que as questões levantadas em Pantera Negra não sejam, pois temos lá questões sobre a luta por igualdade, temos questões de políticas que são desenvolvidas para a defesa da cidade, deixando de lado parentescos, que termina levando a uma busca por vingança.
Quando T’Chaka mata seu irmão, N’Jobu (Sterling K. Brown), que pretendia usar o poderio militar de Wakanda na defesa pela igualdade social dos negros, deixa para trás seu sobrinho, que mais tarde surge desejando o mesmo que o pai, e mais, o trono de Wakanda.
Essa questão de luta pela igualdade social dos negros é uma questão que existe desde muito tempo. A sociedade, principalmente das Américas, ainda sofre para aceitar que existe uma igualdade. Mas como os negros foram escravizados, muitos têm uma ideia que eles são a minoria.
Lógico que essa luta não fica somente restrita para as Américas – mais estritamente os Estados Unidos –, pois a personagem Nakia, vivida pela atriz Lupita Nyong’o, também luta por aqueles que são discriminados socialmente na África. De forma diferentes, ela e Killmonger desejam a mesma coisa, ou seja, o uso do desenvolvimento tecnológico de Wakanda em benefício geral da população negra.
É complicado colocar Erik Killmonger como um vilão, pois quando ele foi abandonado ainda jovem nos Estados Unidos, ele era um órfão. Foi movido pelo desejo de vingar seu pai e continuar sua luta e, ciente de sua herança, tornar-se rei de Wakanda. O termo somente poderia ser usado se fossemos pensar que para ajudar ao seu povo, ele mataria os demais. É uma coisa comum que temos visto nos filmes, pois personagens semelhantes a Killmonger, que usam sua visão de justiça, tem surgido aos montes. Não sei se poderíamos chamar de visão deturpada, pois a exclusão e o abandono, podem tê-lo levado em caminhos tortuosos.
Mas não é somente isso que move o filme, pois vemos uma ação muito bem realizada, com um elenco muito bem entrosado. Desde o momento que o filme inicia sua ação, com uma cena onde T’Challa desce de forma vertiginosa de seu aeroplano (não lembro o nome da nave!), percebemos que teremos cenas cada vez melhores de ação. E sua conversa com sua general Okoye (Danai Gurira), percebemos uma naturalidade no entrosamento do elenco.
Os momentos que possuem um – bem pequeno – alívio cômico, ficam por conta do jeito descontraído de Shuri (Letitia Wright), irmão de T’Challa – que nos quadrinhos chegou a tornar-se a Pantera Negra, que desenvolve a tecnologia usada por seu irmão e pela cidade, e a forma lunática de Ulysses Klaue (Andy Serkis), o Garra Sônica – o nome nem chega a ser mencionado no filme. Mas é tudo bem realizado, que não fica exagerado e nem fora do tom do filme.
O diretor Ryan Coogler é simplesmente excelente na realização desse filme, pois ele traz todas essas questões que falei acima e ao mesmo tempo nos dá um filme de super-herói que poderia surgir a qualquer momento e ainda ser atual. Ele já realizou outros trabalhos com Michael B. Jordan, que faz Killmonger, e o ator mostra o quanto cresceu como ator ao fazer esse papel. O mesmo podemos dizer de cada um dos personagens, principalmente Chadwick Boseman como T’Challa.
Se eu não soubesse que ele nasceu na Carolina do Sul, nos Estados Unidos, poderia dizer que Chadwick nasceu em algum país da África. Já havia adorado sua atuação em “Capitão América: Guerra Civil”, de 2016, e agora ele nos brinda com algo muito maior, pois T’Challa precisa ser rei, mesmo que não desejasse ser. Ele precisa ser filho, irmão e, ao mesmo tempo, ama Nakia. Ele precisa ser o apaziguador, ele precisa saber como tratar as tribos sobre sua proteção e enfrentar as adversidades de seu o detentor do trono de Wakanda. Ele está ótimo no papel e conta com um elenco de apoio dos mais notáveis. Lupita Nyong’o, Danai Gurira, Letitia Wright, Angela Bassett – que faz sua mãe, Ramonda –, Forest Whitaker – que faz seu conselheiro, Zuri –, Daniel Kaluuya – que faz o papel de W’Kabi, chefe de uma das tribos e amor de Okoye – e Winston Duke – o chefe de outra tribo, M’Baku. Ainda entram para esse elenco maravilhoso o ator Martin Freeman, que também reprisa seu personagem de “Capitão América: Guerra Civil”, o agente do governo estadunidense, Everett K. Ross, e Andy Serkis, que – também – reprisa outro personagem que já aparecera em “Vingadores: A Era de Ultron”, Ulysses Klaue.
Com tantos aspectos positivos – não entrarei nos detalhes dos críticos enfadonhos que ficam exigindo coisas desnecessárias –, “Pantera Negra” entra para qualquer lista de melhores filmes, facilmente.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

RESENHA CINEMA: Liga da Justiça (Justice League, 2017).

LIGA DA JUSTIÇA (Justice League, 2017).

Direção: Zack Snyder, Joss Whedon
Roteiro: Chris Terrio, Zack Snnyder, Joss Whedon
Elenco: Ben Affleck, Gal Gadot, Jason Momoa, Ezra Miller, Ray Fisher, Henry Cavill, Ciarán Hinds, Jeremy Irons, Amy Adams, Diane Lane, J.K. Simmons, Connie Nielsen, Amber Heard, Joe Morton.

Superman (Henry Cavill) está morto, mas os perigos que surgem com isso, fazem Batman (Ben Affleck) e Mulher-Maravilha (Gal Gadot) selecionarem outros que podem ajuda-los a combater a ameaça do Lobo da Estepe (Ciarán Hinds), um novo deus que deseja tomar as Caixas Maternas para ele e, com isso, transformar a Terra, como desejara fazer no passado, mas fora detido por um grupo de heróis.
Liga da Justiça é o quarto filme do Universo Expandido DC nos cinemas e une Batman e Mulher- Maravilha a Aquaman (Jason Momoa) – um híbrido de homem com atlante que herdou o trono da cidade aquática –, Flash (Ezra Miller) – um rapaz que, após um acidente, tornou-se o homem mais rápido do mundo – e Ciborgue (Ray Fisher) – um jovem atleta que teve o corpo deformado após um acidente e terminou tornando-se metade homem, metade máquina. A ameaça que eles enfrentam se equipara a ameaça de Ares em “Mulher-Maravilha”, mas tem uma superação, pois o novo deus Lobo da Estepe está na busca das maiores armas dos novos deuses, as Caixas Maternas. Passar disso seria entregar spoilers desnecessários.
Liga da Justiça tem uma história bem interessante que nos leva ao patamar máximo dos filmes do UEDC, mas tem suas falhas no desenrolar da história. Não sei se é a busca pelo humor em momentos bem pontuados – e que nem sempre cabem na história –, mas tem momentos de perda de ritmo e de vazios.
Mesmo que busquem amarrar bem o enredo, o filme tem quebras que atrapalham a história. Sem contar que teve mudanças que ocorreram depois da divulgação do trailer final, o que nos deixa com uma sensação de enganação. Talvez isso tenha ocorrido por causa das mudanças de diretor, pois cada um tem sua visão do enredo, ainda mais quando esse também é modificado, em partes, pelo novo diretor.
Não temos desenvolvimento dos personagens, pois Aquaman, Ciborgue, Flash e Batman, terão seus filmes individuais. Já Mulher-Maravilha e Superman – não chega a ser spoiler, pois sabíamos que ele retornaria – já tiveram suas histórias contadas em filmes anteriores do UEDC. Não creio que veremos uma nova história de criação do Batman – sério, é desnecessário, pois vemos em Batman Begins (2005) e, em parte, em Batman vs. Superman: A Origem da Justiça (2016) –, mas eu espero um filme muito interessante, pois teremos o Exterminador (Joe Manganiello). As mudanças de clima no filme são perceptíveis no decorrer dele. Há uma tensão reconhecível no começo do filme e vai mudando isso no decorrer da história, principalmente após o retorno do Superman. O vilão Lobo da Estepe é uma introdução interessante. Li muitas críticas de que acharam o uso do CGI para a criação do personagem desnecessária, mas se pensarmos que ele é um novo deus, um ser divino e assecla de Darkseid, ele é inumano – sem referências – e, dessa forma, sua criação não poderia ser somente maquiagem e efeito de câmera. Mas vale lembrar que tem um ator por trás desse novo deus e Ciáran Hinds se sai muito bem.

Liga da Justiça é um filme de integração do maior grupo de super-heróis da DC Comics, que faz seu fanservice muito bem, com bastante ação, enredo bem desenvolvido, diversão moderada e nos dá mais um novo degrau ao Universo Expandido DC. Agora é só esperarmos pelo que vem pela frente, pois em 2018 teremos Aquaman e, em 2019 – possivelmente –, um novo filme da Liga da Justiça. Ficamos na expectativa.

domingo, 29 de outubro de 2017

RESENHA HQ: Surfista Prateado: Réquiem (The Silver Surfer: Requiem)

SURFISTA PRATEADO: RÉQUIEM (The Silver Surfer: Requiem).

Roteiro: J. Michael Stravzynski
Arte: Esad Ribic
Editora: Marvel Comics (BR: Panini Comics)
Ano: 2007 (BR: 2008)
Pág.: 96

RÉQUIEM
1     Rubrica: liturgia.
prece que a Igreja faz para os mortos
2     Rubrica: música.
         composição sobre o texto litúrgico da missa dos mortos cujo introito começa com as palavras latinas requiem aeternam ('repouso eterno')

Norrin Radd, o Surfista Prateado, desde que conseguiu ser liberado de sua prisão na Terra, vem explorando o espaço sobre sua prancha. Suas explorações, sem a necessidade de ser o arauto de Galactus, o Devorados de Mundos, vem lhe trazendo sabedoria e esclarecimento. Mas nem tudo é eterno e ele precisa descobrir o que mais pode fazer pelos mortais que conhece e que conhecera ao singrar o espaço sideral.
“Surfista Prateado: Réquiem” é uma obra prima de J. Michael Straczynski e Esad Ribic, onde a essência do personagem é extremamente necessária para o desenvolvimento do enredo.
O Surfista Prateado retorna à Terra, pois descobriu que algo está acontecendo e precisa da ajuda dos velhos amigos do Quarteto Fantástico. Nesse meio tempo, ele encontra o Homem-Aranha para conversarem sobre a necessidade de um mundo melhor e a dificuldade de isso ocorrer. Norrin também encontra seu velho companheiro do grupo Os Defensores, Doutor Estranho, que lhe dá um presente único, antes de sua partida.
No espaço, Surfista Prateado faz novas descobertas sobre devoção e fanatismo, sobre cooperação e exploração, até chegar a Zenn-La, seu antigo lar ao lado da bela Shalla-Bal. Em seu antigo planeta, ele descobre que todo seu sacríficio foi gratificado com o povo reconhecendo o que ele fizera. Isso tudo sobre a arte do pincel de Esad Ribic.
Ribic tem um capricho significativo nesse trabalho com o Surfista Prateado. A forma que ele trabalha a luminosidade e os efeitos na pele prateada de Norrin Radd é linda. Ele dá, ao trabalho, sua própria perspectiva dos personagens, não muito diferente do que fez em Loki ou em outros trabalhos desenvolvidos com a Marvel. Sua forma de interpretar o Quarteto Fantástico, o Homem-Aranha, Mary Jane, Doutor Estranho, Shalla-Bal e Galactus, são de um tom artístico fantástico.

“Surfista Prateado: Réquiem” é uma excelente obra de um personagem que se tornou um filósofo da vida humana, mesmo não sendo humano. A interpretação de Straczynski – que já realizou trabalhos com o Homem-Aranha, entre outros personagens – cria um novo aspecto  que não havia – ainda – sido pensado para o personagem. Pena que a Panini ainda não lançou um encadernado desse trabalho, pois com certeza merecia, mesmo com capa brochura, como a Marvel Comics fez em 2008. Vamos torcer que não demore.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

RESENHA HQ: Como falar com garotas em festas (How to talk to girls at parties)

COMO FALAR COM GAROTAS EM FESTAS (How to talk to girls at parties).

Autor: Neil Gaiman
Arte: Fábio Moon e Gabriel Bá
Editora: Headline Publishing Group (BR: Quadrinhos na Cia.)
Ano: 2016 (BR: 2017)
Pág.: 80
Enn e seu amigo Vic chegam a uma festa que, supostamente, eles haviam sido convidados. Nela, várias moças estão festejando e dançando ao som de uma música diferente. Ambos têm quinze anos e estão em plena juventude dos anos de 1970, contagiados pela onde punk que invadia o Reino Unido na época. Mas tem algo estranho e diferente com as moças que, aparentemente, eram de “intercâmbio”. Enn busca, pela primeira vez, conseguir conversar com uma garota, mas esse algo diferente o leva a encontrar novidades na forma de se conversar com uma garota em uma festa sem igual.
Logo quando entrei para o grupo do Facebook “Revista Mundo dos Super-Heróis”, conheci uma pessoa que me apresentou esse conto do Neil Gaiman, “Como falar com garotas em festas”. Quando eu li, estava começando a conhecer o trabalho de Neil Gaiman, nem havia lido Sandman ainda, somente 1602, uma minissérie que ele havia escrito para a Marvel. Eu achei fora do comum o conto desse inglês. Mistura o movimento punk com uma ficção científica envolvida em uma comédia, com tons de terror. Como eu escrevi, é fora do comum.
Enn é um rapaz, como muitos de nós fomos – ou somos –, em busca de ter a primeira relação com uma moça. Tímido, não muito atraente, ele não sabe como chegar em meninas e, por muitas vezes, está sozinho e fica para escanteio. Totalmente ao contrário de seu amigo Vic, que é bonitão, todo entrosado, conversador, sabe como chegar nas meninas sem ficar constrangido e, dificilmente, fica para escanteio em qualquer festa que eles entrem, mesmo que sejam penetras.
Se eu me identifiquei com o Enn? Na hora! As formas como ele chega nas meninas, a forma de se entrosar, chega a ser engraçado, pois eu me identifiquei no momento exato que eu li. Nunca sabendo o que falar para as garotas, ele terminava em um assunto que não entendia, o interessante desse conto do Gaiman – que ganhou os prêmios Hugo Award e Locus Award, em 2007, de Melhor História Curta e, em 09 de outubro de 2017 o filme estreou no Festival do Rio 2017, com quatro apresentações – uma no Reserva Cultural Niterói 2 e três no Estação NET Botafogo 1 –, estrelado por Alex Sharp, Elle Fanning e Nicole Kidman – é que ele retrata uma realidade que muitos vivem até os dias de hoje.
Desde a década de 1970, em pleno movimento punk, até o atual século XXI, sempre tem um Enn em um canto de uma festa que mal consegue falar com garotas, acuado, temeroso em não saber o que falar com uma menina.
Já a arte de Fábio Moon e Gabriel Bá torna o conto ainda mais interessante. Eu não conheço Londres, mas achei fantástica a ambientação que eles deram à história, sem contar os personagens, pois o Enn me fez lembrar, no exato momento que o vi, do autor Neil Gaiman. As meninas têm uma aparência ímpar, diferente do normal, mas que são extremamente interessantes.

“Com Falar Com Garotas em Festas” é uma deliciosa história com uma arte muito bem trabalhada que deve fazer parte de qualquer coleção de quadrinhos. Vale mesmo a pena, principalmente por representar uma época importante na vida de muitos, que é a adolescência, onde começamos a aprender como conviver com outras pessoas, mesmo que sejam bem, bem diferentes.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

RESENHA HQ: Blacksad. Algum lugar em meio às sombras – Volume 1 (Blacksad. Un lugar entre las sombras)

BLACKSAD. ALGUM LUGAR EM MEIO ÀS SOMBRAS – VOLUME 1 (Blacksad. Un lugar entre las sombras).

Roteiro: Juan Diaz Canales
Arte: Juanjo Guarnido
Editora: Dargaud (BR: SESC-SP)
Ano: 2000 (BR: 2017)
Pág.: 56

John Blacksad é um detetive particular que é acusado injustamente do assassinato uma antiga namorada e, por isso, busca a todo custo descobrir quem é o verdadeiro assassino e fazer a devida justiça.
Blacksad é uma série de quadrinhos policial, lançada na Espanha em 2000. O clima das histórias tem um ambiente dos filmes policiais da década de 1940 e 1950, seguindo um estilo noir com cores e tons misturando do sombrio para tons pastéis. O mais interessante das histórias? Todos os personagens são zoomórficos. John Blacksad é um gato, os policiais são caninos, os bandidos são répteis e roedores, isso tudo em uma história em quadrinhos europeia e adulta.
Não estamos falando de algo como “Maus”, mas segue uma ideia que se assemelha, onde personagens zoomórficos representam os aspectos humanos ou, pelo menos, a ideia do autor sobre esses aspectos humanos.
Experimentei em Blacksad um tipo de enredo que não esperava ler em uma história em quadrinhos escrita e desenhada por espanhóis. Sabemos que, por anos, os italianos vêm desenvolvendo as melhores histórias em quadrinhos de faroeste com Tex Willer, mas uma história policial, com um excelente clima noir, foi uma grande surpresa.

Juan Diaz Canales, escritor da história, nos fornece uma ótima experiência com essa história policial. Ele consegue captar o clima de uma época que encanta, até os dias de hoje, as pessoas fascinadas por boas histórias de detetive. Lembrou-me de “Casablanca”, por exemplo. Sei que não é o mesmo enredo, mas senti como um clima semelhante. Canales consegue fazer com que embarquemos e admiremos a história de Blacksad.
A arte de Juanjo Guarnido é linda. Ele trabalha os personagens e o ambiente de uma forma que você reconheça o ambiente onde eles estão. Você reconhece cada ser zoomórfico e como combinam com suas personalidades, graças aos traços de Guarnido.

“Blacksad. Algum lugar em meio às sombras” é uma obra dos quadrinhos europeus que deve ser lida e apreciada, pois contém uma ótima história, uma arte deslumbrante que compõem como um todo.

domingo, 15 de outubro de 2017

RESENHA HQ: Chico Bento – Arvorada (2017)

CHICO BENTO – ARVORADA

Roteiro: Orlandeli
Arte: Orlandeli
Editora: Panini Comics
Ano: 2017
Pág.: 100

“Toda história carece di um lugar pra começá. Nem percisa di muito luxo, i coisa i tar. Pra falá a verdade, quanto mais simpres, mior. A simpricidade traz crareza. Num dexa as compriquera da vida imbaçá as vista da gente. É um oiar diferente. Donde si vê com os zóio, mas si enxerga com o coração! Essa é a história di um minino, uma ançiã i um IPÊ-AMARELO!”

Na roça onde Chico Bento mora, ele sempre se depara com as belezas da vida. Seja um riacho onde ele pesca com o primo, Zé Lelé, seja na plantação de goiabas do Nhô Lau, onde ele dana a roubar goiabas, pois são deliciosas ou seja no sorriso de Rosinha, seu eterno amor. Uma das belezas que ele se depara é o Ipê-Amarelo, uma árvore típica do Brasil, que floresce uma vez por ano e é tão breve seu florescer que, se piscar, pode perder sua beleza. Isso ele aprender com a maior sábia que já passou pela sua vida, sua avó Dita.
Apesar de termos vários dos elementos das histórias do Chico aqui, o personagem central não é ele, mas sim os ensinamentos que sua avó lhe transmitiu. Sim, os ensinamentos. Orlandeli torna essa história em mais um marco das Graphic MSP.
Iniciado em 2012, as publicações das Graphic MSP têm nos mostrado histórias fantásticas que vão desde ficção científica até histórias sobrenaturais e de aventura. Todas, da sua forma, trazem um ensinamento, uma chance de reflexão sobre determinação, perseverança, crença e amizade. Dessa vez, com arte e história do paulista Walmir Américo Orlandeli, “Chico Bento – Arvorada” é uma linda história de vida, essa, transmitida por gerações, onde a geração anterior – incorporada pela Vó Dita – transmite para a futura – no caso do nosso querido Chico Bento – ensinamentos e lições que poderá levar para uma vida.
Vó Dita é uma personagem que Maurício de Sousa criou pensando em sua avozinha. No transcorrer do tempo que ela aprece nas histórias do Chico, ela conta causos, além de transmitir ensinamentos e lições que Chico e seus leitores sempre aprendem. Tudo isso está nas oitenta páginas de história (sem contar os créditos e os extras). Orlandeli, nessa Graphic MSP, capta toda a essência do Chico Bento e suas histórias e surpreende por mostrar o quanto uma história do Chico Bento pode ser cativante e eterna. Leitores antigos reconheceram histórias esquecidas, mas também se identificaram com os sentimentos refletidos nessa história.

“Chico Bento – Arvorada” é mais um marco nas Graphic MSP, que têm-se mostrado um presente divino e gratificante.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

RESENHA CINEMA: It: A Coisa (IT, 2017)

IT: A COISA (IT, 2017).

Direção: Andy Muschietti
Roteiro: Chase Palmer, Cary Fukunaga, Gary Dauberman
Elenco: Jaeden Lieberher, Jeremy Ray Taylor, Sophia Lillis, Finn Wolfhard, Chosen Jacobs, Jack Dylan Grazer, Wayatt Oleff, Bill Skarsgård, Nicholas Hamilton, Jake Sim, Logan Thompson, Owen Teague, Jackson Robert Scott.

Uma chuva torrencial acontece em Derry, no Maine, quando o jovem Georgie Denbrough (Jackson Robert Scott) decide sair de casa para testar o barquinho de papel feito pelo seu irmão mais velho, Bill (Jaeden Lieberher), que está de cama e não pode ir junto com ele. Mas Georgie termina desaparecendo após encontrar-se com Pennywise (Bill Skarsgård), o Palhaço Dançante, algo que vem acontecendo constantemente na cidade.
Quando o verão se inicia, Bill junta seus amigos Richie Tozier (Finn Wolfhard), Eddie Kaspbrak (Jack Dylan Grazer) e Stanley “Stan” Uris (Wyatt Oleff) para ajuda-lo a descobrir o que aconteceu ao seu irmão. Na busca, juntam-se a eles a jovem Beverly Marsh (Sophia Lillis), Ben Hanscom (Jeremy Ray Taylor) e Mike Hanlon (Chosen Jacobs), pois eles todos têm visões com Pennywise, visões tão concretas que eles creem que somente existe uma forma de deter o palhaço, enfrentando-o.
“It: A Coisa” não é a primeira adaptação da obra do mestre do Terror Moderno, Stephen King. Em 1990, o diretor Tommy Lee Wallace e o roteirista Lawrence D. Cohen decidiram fazer uma adaptação, colocando o passado da história – retratado nesse novo filme – como simples lembranças dos personagens centrais da história. Isso foi um erro, pois perdeu a riqueza de detalhes que essa história tem. Detalhes esses que foram amplamente abordados no novo filme.
O drama dos personagens, a dinâmica deles em grupo ou na luta contra Pennywise ou o personagem Henry Bowers (Nicholas Hamilton), fica melhor entendido no filme dirigido por Andy Muschietti. Temos uma melhor compreensão do que acontece com Beverly Marsh e seu pai, que não é somente um caso de violência doméstica com a menina, vai bem mais além. Até mesmo o próprio Bowers, é compreensível o medo dele com seu pai. Também temos uma maior amplitude quanto ao preconceito racial. Ou seja, Muschietti não quis colocar panos quentes em dramas profundos. E ele também tem uma grande sorte de ter um elenco juvenil capaz de dar a dramaticidade necessária aos filmes. São crianças e adolescentes na faixa etária de idade de 8 a 18 anos, que têm a capacidade de causar uma grande empatia no público, mostrando que It funciona como um grande filme de terror.
Mas, pelo que podemos testemunhar, Muschietti é um diretor que sabe trabalhar com crianças em seus filmes. Pois quem não se recorda do trabalhos das duas meninas criadas por um fantasma no aterrorizante “Mama”.
Esse diretor argentino tem um “dedo verde” para filme de tensão e terror. Ele gosta de trabalhar com formas antropomórficas e seres aberrantes, além de conseguir desenrolar um drama psicológico no filme, trabalhando cada um dos personagens, sem perde nenhum de vista, pois mesmo percebendo que o protagonista é Bill Denbrough, na sua busca em descobrir o que ocorrera com seu irmão indo de encontro com o antagonista central, o palhaço sobrenatural Pennywise, um mal que assola a cidade de tempos em tempos. Muschietti não esquece dos outros co-protagonistas e dos co-antagonistas, que são tão importantes para a trama.

“It: A Coisa” é um filme de terror de qualidade. Sim, vai ter os sustos esperados em um filme de terror, mas também tem a tensão, o clima e a dramaticidade necessária para o funcionamento do filme. Não consigo ver mais filmes de terror funcionando somente com meros sustos em momentos que não se espera. Tem que ter algo mais, algo que vai além do medo e da tensão e, esse algo, “It: A Coisa” tem de sobra.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

RESENHA HQ: Comunhão (2017).

COMUNHÃO (2017)

Roteiro: Felipe Folgosi
Arte: J.B. Bastos
Editora: Instituto dos Quadrinhos
Pág.: 144

Amy é uma aventureira. Determinada e obstinada, ela lidera uma equipe de exploração que se aventura em florestas, quando uma terrível tragédia acontece com ela. Esta tragédia a traumatizou de uma forma que ela desiste das explorações e se torna dedicada à religião. Quando seu irmão, Mark, e outros amigos decidem participar de uma competição de corrida no Brasil, ela vem como apoio e reencontra seu ex-namorado, Daniel. Com isso, ela, Daniel, Mark, e vários outros embarcam em uma aventura cujo um mal se colocará de frente para eles, testando toda sua fé e seu desejo de sobrevivência.
Quando busquei a palavra Comunhão no Dicionário Houaiss, encontrei:
ato ou efeito de comungar. 1 realização de algo em comum. 2 sintonia de sentimentos, de modo de pensar, agir ou sentir, identificação. 3 comparticipação, união, ligação.
Quando você lê esse trabalho de Felipe Folgosi, percebe essa comunhão não é somente parte do título, mas está em todos os aspectos do enredo. O interesse de vários em exploração é um desses aspectos que você vê nessa graphic novel. Não dá para entrar em mais detalhes sem entregar parte da história, que extremamente interessante.
Quanto ao enredo, ele foi um desafio dado a Folgosi. Um amigo dele pediu para ele escrever uma história de terror e ele nos entrega um grande thriller com bastante ação e cenas de tirar o fôlego. Para isso ele uniu seu país, uma paixão e uma devoção, depois juntou tudo a um clima tenso e cheio de surpresas.
Associado a isso, temos o lindo trabalho do artista J.B. Bastos. Como opção – bem diferente de seu primeiro trabalho, Aurora –, Folgosi preferiu um trabalho em preto e branco, deixando tudo nas mãos de Bastos, que demonstrou todo seu talento com tracejados bem detalhados. A opção pelo P&B nos remete para os clássicos trabalhos de terror que fizeram grande sucesso nas décadas de 1960, 1970 e 1980, que vinham totalmente trabalhada pelo artista, sem cores, usando jogos de sombras e arte final do próprio desenhista. Então a opção de Folgosi – mesmo se não for a intenção – criou uma clara homenagem a trabalho de artistas como Rodolfo Zalla, Eugenio Collonese, Gedeone Malagola, e tantos outros.
As cenas desenhadas por Bastos têm uma força e presença sem igual, sendo bem viscerais e tensas. Junta-se a isso a capa desenhada por Will Conrad e Ivan Nunes, que mostra o nível de tensão que acontece em todo o decorrer da história.
Cada momento que você descobre algo, você percebe que é uma ideia bem interessante para esse enredo.
Comunhão é mais um novo trabalho muito bem desenvolvido por nossos artistas brasileiros. A cada material novo que eu vejo e que eu leio da produção independente, que tem o apoio requerido dentro do Catarse, percebo que temos mais artistas capazes do que imaginamos. Pessoas com boas ideias para desenvolver bons trabalhos. Isso mostra que nem sempre precisamos procurar material lá fora para termos bom material aqui e que a indústria de quadrinhos do Brasil merecia mais incentivo do que tem. Graças a Apolo temos empresas como o Instituto dos Quadrinhos que acreditam e incentivam esse tipo de produção dentro de nosso país.

A Felipe Folgosi eu só tenho a agradecer por transformar seus roteiros de filmes em grandes histórias de quadrinhos. Primeiro foi Aurora agora ele nos entrega Comunhão. Uma ficção científica e um thriller de suspense e terror. Vamos ver o que mais esse artista tem para nos reservar, e espero que seja muita coisa boa.

sábado, 29 de julho de 2017

RESENHA HQ: Escolhas (2017)

ESCOLHAS (2017).

Roteiro: Felipe Cagno
Arte: Gustavo Borges
Cores: Cris Peter

“[...] se você desistiu tão facilmente apenas porque uma pessoa, não importa quem fosse, lhe disse que era impossível, você nunca quis ser (...) de verdade”. _Felipe Gagno
João Humberto, quando criança, adorava assistir o desenho animado do personagem Lobo Cinzento. Esse personagem o fez acreditar que era capaz dele, um dia, tornar-se um super-herói.
Ele então dedicou-se de corpo e alma para esse objetivo e, constantemente, teve que lutar pela descrença e pelas tentativas de desmotiva-lo, que vinham, até mesmo, das pessoas que ele mais amava. Mas isso nunca o fez desistir, pois sabia que sua esperança, um dia, seria gratificada.
Felipe Cagno e Gustavo Borges, em 2014, assistiram uma palestra do escritor estadunidense Scott Snyder, onde ele disse que tudo que escrevia colocava algo pessoal e que todos roteiristas deveriam fazer o mesmo. Isso inspirou-os e, então, surgiu Escolhas, o mais recente trabalho de ambos.
 Cagno escreveu a história ao lado de Borges, depois fez o roteiro, enquanto seu parceiro ficou por conta da arte. Com tudo feito eles chamaram Cris Peter que trabalhou as cores de uma forma majestosa. E ficou pronto um dos mais fantásticos trabalhos independentes dos quadrinhos brasileiros.
Escolhas mexe com o brio de todo fã de super-heróis, pois o desejo de ser um personagem que ajuda as pessoas com seus poderes e inspira outras, sempre foi o que motivou um fã, principalmente na sua infância. Levar isso para a vida adulta como um objetivo de vida, torna-se algo motivador. Lógico que não de virar um super-herói, mas de não desistir dos seus sonhos, mesmo que tenham barreiras e obstáculos que tentem impossibilitar suas realizações. Felipe Cagno – acho eu – sempre desejou ser um grande roteirista e, hoje, têm trabalhos fantásticos como Lost Kids, 321 – Fast Comics e Os Poucos & Amaldiçoados (que já está em sua segunda campanha no Catarse). Não tenho certeza – também –, mas Gustavo Borges deve ter sonhado em realizar grandes trabalhos, daí então criou Morte Crens, Edgar e Pétalas, entre outros trabalhos. Cris Peter – vamos lá, novamente – deve ter pensado que seus trabalhos gráficos um dia deixariam sua marca no mundo, hoje ela já tem trabalhos de coloração em editoras estadunidenses do porte de Dark Horse Comics, Marvel Comics, além de realizar vários outros trabalhos junto com artistas brasileiros como Gabriel Bá, Fabio Moon, Gustavo Borges, entre outros. Isso, sem contar que podemos acompanha-la em seu site Cris Peter Digital Colors. Todos os roteiristas e artistas brasileiros vêm buscando isso, realizações com seus trabalhos e vêm desenvolvendo produções independentes, em geral, fantásticas. Eles têm uma forma de fazer isso, já que não contam com grandes indústrias de quadrinhos para lançar seus trabalhos, o site de apoio coletivo Catarse, onde Escolhas teve um apoio de 268%.
É maravilhoso vermos um trabalho tão bem feito, tão motivador sendo realizado, publicado e vendido em livrarias e lojas especializadas, tendo uma editora de livros apoiando, o que se torna um fato muito revelador, já que sempre é bem complicado e alguns artistas, as vezes, precisam criar suas próprias editoras para publicar seus trabalhos.

Escolhas é uma realização fantástica. Vou ser repetitivo, mas ela motiva qualquer um a acreditar em si mesmo e fazer o melhor para nunca desistir, acreditando em si, mesmo que os outros duvidem.