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domingo, 15 de outubro de 2017

RESENHA HQ: Chico Bento – Arvorada (2017)

CHICO BENTO – ARVORADA

Roteiro: Orlandeli
Arte: Orlandeli
Editora: Panini Comics
Ano: 2017
Pág.: 100

“Toda história carece di um lugar pra começá. Nem percisa di muito luxo, i coisa i tar. Pra falá a verdade, quanto mais simpres, mior. A simpricidade traz crareza. Num dexa as compriquera da vida imbaçá as vista da gente. É um oiar diferente. Donde si vê com os zóio, mas si enxerga com o coração! Essa é a história di um minino, uma ançiã i um IPÊ-AMARELO!”

Na roça onde Chico Bento mora, ele sempre se depara com as belezas da vida. Seja um riacho onde ele pesca com o primo, Zé Lelé, seja na plantação de goiabas do Nhô Lau, onde ele dana a roubar goiabas, pois são deliciosas ou seja no sorriso de Rosinha, seu eterno amor. Uma das belezas que ele se depara é o Ipê-Amarelo, uma árvore típica do Brasil, que floresce uma vez por ano e é tão breve seu florescer que, se piscar, pode perder sua beleza. Isso ele aprender com a maior sábia que já passou pela sua vida, sua avó Dita.
Apesar de termos vários dos elementos das histórias do Chico aqui, o personagem central não é ele, mas sim os ensinamentos que sua avó lhe transmitiu. Sim, os ensinamentos. Orlandeli torna essa história em mais um marco das Graphic MSP.
Iniciado em 2012, as publicações das Graphic MSP têm nos mostrado histórias fantásticas que vão desde ficção científica até histórias sobrenaturais e de aventura. Todas, da sua forma, trazem um ensinamento, uma chance de reflexão sobre determinação, perseverança, crença e amizade. Dessa vez, com arte e história do paulista Walmir Américo Orlandeli, “Chico Bento – Arvorada” é uma linda história de vida, essa, transmitida por gerações, onde a geração anterior – incorporada pela Vó Dita – transmite para a futura – no caso do nosso querido Chico Bento – ensinamentos e lições que poderá levar para uma vida.
Vó Dita é uma personagem que Maurício de Sousa criou pensando em sua avozinha. No transcorrer do tempo que ela aprece nas histórias do Chico, ela conta causos, além de transmitir ensinamentos e lições que Chico e seus leitores sempre aprendem. Tudo isso está nas oitenta páginas de história (sem contar os créditos e os extras). Orlandeli, nessa Graphic MSP, capta toda a essência do Chico Bento e suas histórias e surpreende por mostrar o quanto uma história do Chico Bento pode ser cativante e eterna. Leitores antigos reconheceram histórias esquecidas, mas também se identificaram com os sentimentos refletidos nessa história.

“Chico Bento – Arvorada” é mais um marco nas Graphic MSP, que têm-se mostrado um presente divino e gratificante.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

RESENHA CINEMA: It: A Coisa (IT, 2017)

IT: A COISA (IT, 2017).

Direção: Andy Muschietti
Roteiro: Chase Palmer, Cary Fukunaga, Gary Dauberman
Elenco: Jaeden Lieberher, Jeremy Ray Taylor, Sophia Lillis, Finn Wolfhard, Chosen Jacobs, Jack Dylan Grazer, Wayatt Oleff, Bill Skarsgård, Nicholas Hamilton, Jake Sim, Logan Thompson, Owen Teague, Jackson Robert Scott.

Uma chuva torrencial acontece em Derry, no Maine, quando o jovem Georgie Denbrough (Jackson Robert Scott) decide sair de casa para testar o barquinho de papel feito pelo seu irmão mais velho, Bill (Jaeden Lieberher), que está de cama e não pode ir junto com ele. Mas Georgie termina desaparecendo após encontrar-se com Pennywise (Bill Skarsgård), o Palhaço Dançante, algo que vem acontecendo constantemente na cidade.
Quando o verão se inicia, Bill junta seus amigos Richie Tozier (Finn Wolfhard), Eddie Kaspbrak (Jack Dylan Grazer) e Stanley “Stan” Uris (Wyatt Oleff) para ajuda-lo a descobrir o que aconteceu ao seu irmão. Na busca, juntam-se a eles a jovem Beverly Marsh (Sophia Lillis), Ben Hanscom (Jeremy Ray Taylor) e Mike Hanlon (Chosen Jacobs), pois eles todos têm visões com Pennywise, visões tão concretas que eles creem que somente existe uma forma de deter o palhaço, enfrentando-o.
“It: A Coisa” não é a primeira adaptação da obra do mestre do Terror Moderno, Stephen King. Em 1990, o diretor Tommy Lee Wallace e o roteirista Lawrence D. Cohen decidiram fazer uma adaptação, colocando o passado da história – retratado nesse novo filme – como simples lembranças dos personagens centrais da história. Isso foi um erro, pois perdeu a riqueza de detalhes que essa história tem. Detalhes esses que foram amplamente abordados no novo filme.
O drama dos personagens, a dinâmica deles em grupo ou na luta contra Pennywise ou o personagem Henry Bowers (Nicholas Hamilton), fica melhor entendido no filme dirigido por Andy Muschietti. Temos uma melhor compreensão do que acontece com Beverly Marsh e seu pai, que não é somente um caso de violência doméstica com a menina, vai bem mais além. Até mesmo o próprio Bowers, é compreensível o medo dele com seu pai. Também temos uma maior amplitude quanto ao preconceito racial. Ou seja, Muschietti não quis colocar panos quentes em dramas profundos. E ele também tem uma grande sorte de ter um elenco juvenil capaz de dar a dramaticidade necessária aos filmes. São crianças e adolescentes na faixa etária de idade de 8 a 18 anos, que têm a capacidade de causar uma grande empatia no público, mostrando que It funciona como um grande filme de terror.
Mas, pelo que podemos testemunhar, Muschietti é um diretor que sabe trabalhar com crianças em seus filmes. Pois quem não se recorda do trabalhos das duas meninas criadas por um fantasma no aterrorizante “Mama”.
Esse diretor argentino tem um “dedo verde” para filme de tensão e terror. Ele gosta de trabalhar com formas antropomórficas e seres aberrantes, além de conseguir desenrolar um drama psicológico no filme, trabalhando cada um dos personagens, sem perde nenhum de vista, pois mesmo percebendo que o protagonista é Bill Denbrough, na sua busca em descobrir o que ocorrera com seu irmão indo de encontro com o antagonista central, o palhaço sobrenatural Pennywise, um mal que assola a cidade de tempos em tempos. Muschietti não esquece dos outros co-protagonistas e dos co-antagonistas, que são tão importantes para a trama.

“It: A Coisa” é um filme de terror de qualidade. Sim, vai ter os sustos esperados em um filme de terror, mas também tem a tensão, o clima e a dramaticidade necessária para o funcionamento do filme. Não consigo ver mais filmes de terror funcionando somente com meros sustos em momentos que não se espera. Tem que ter algo mais, algo que vai além do medo e da tensão e, esse algo, “It: A Coisa” tem de sobra.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

RESENHA HQ: Comunhão (2017).

COMUNHÃO (2017)

Roteiro: Felipe Folgosi
Arte: J.B. Bastos
Editora: Instituto dos Quadrinhos
Pág.: 144

Amy é uma aventureira. Determinada e obstinada, ela lidera uma equipe de exploração que se aventura em florestas, quando uma terrível tragédia acontece com ela. Esta tragédia a traumatizou de uma forma que ela desiste das explorações e se torna dedicada à religião. Quando seu irmão, Mark, e outros amigos decidem participar de uma competição de corrida no Brasil, ela vem como apoio e reencontra seu ex-namorado, Daniel. Com isso, ela, Daniel, Mark, e vários outros embarcam em uma aventura cujo um mal se colocará de frente para eles, testando toda sua fé e seu desejo de sobrevivência.
Quando busquei a palavra Comunhão no Dicionário Houaiss, encontrei:
ato ou efeito de comungar. 1 realização de algo em comum. 2 sintonia de sentimentos, de modo de pensar, agir ou sentir, identificação. 3 comparticipação, união, ligação.
Quando você lê esse trabalho de Felipe Folgosi, percebe essa comunhão não é somente parte do título, mas está em todos os aspectos do enredo. O interesse de vários em exploração é um desses aspectos que você vê nessa graphic novel. Não dá para entrar em mais detalhes sem entregar parte da história, que extremamente interessante.
Quanto ao enredo, ele foi um desafio dado a Folgosi. Um amigo dele pediu para ele escrever uma história de terror e ele nos entrega um grande thriller com bastante ação e cenas de tirar o fôlego. Para isso ele uniu seu país, uma paixão e uma devoção, depois juntou tudo a um clima tenso e cheio de surpresas.
Associado a isso, temos o lindo trabalho do artista J.B. Bastos. Como opção – bem diferente de seu primeiro trabalho, Aurora –, Folgosi preferiu um trabalho em preto e branco, deixando tudo nas mãos de Bastos, que demonstrou todo seu talento com tracejados bem detalhados. A opção pelo P&B nos remete para os clássicos trabalhos de terror que fizeram grande sucesso nas décadas de 1960, 1970 e 1980, que vinham totalmente trabalhada pelo artista, sem cores, usando jogos de sombras e arte final do próprio desenhista. Então a opção de Folgosi – mesmo se não for a intenção – criou uma clara homenagem a trabalho de artistas como Rodolfo Zalla, Eugenio Collonese, Gedeone Malagola, e tantos outros.
As cenas desenhadas por Bastos têm uma força e presença sem igual, sendo bem viscerais e tensas. Junta-se a isso a capa desenhada por Will Conrad e Ivan Nunes, que mostra o nível de tensão que acontece em todo o decorrer da história.
Cada momento que você descobre algo, você percebe que é uma ideia bem interessante para esse enredo.
Comunhão é mais um novo trabalho muito bem desenvolvido por nossos artistas brasileiros. A cada material novo que eu vejo e que eu leio da produção independente, que tem o apoio requerido dentro do Catarse, percebo que temos mais artistas capazes do que imaginamos. Pessoas com boas ideias para desenvolver bons trabalhos. Isso mostra que nem sempre precisamos procurar material lá fora para termos bom material aqui e que a indústria de quadrinhos do Brasil merecia mais incentivo do que tem. Graças a Apolo temos empresas como o Instituto dos Quadrinhos que acreditam e incentivam esse tipo de produção dentro de nosso país.

A Felipe Folgosi eu só tenho a agradecer por transformar seus roteiros de filmes em grandes histórias de quadrinhos. Primeiro foi Aurora agora ele nos entrega Comunhão. Uma ficção científica e um thriller de suspense e terror. Vamos ver o que mais esse artista tem para nos reservar, e espero que seja muita coisa boa.

sábado, 29 de julho de 2017

RESENHA HQ: Escolhas (2017)

ESCOLHAS (2017).

Roteiro: Felipe Cagno
Arte: Gustavo Borges
Cores: Cris Peter

“[...] se você desistiu tão facilmente apenas porque uma pessoa, não importa quem fosse, lhe disse que era impossível, você nunca quis ser (...) de verdade”. _Felipe Gagno
João Humberto, quando criança, adorava assistir o desenho animado do personagem Lobo Cinzento. Esse personagem o fez acreditar que era capaz dele, um dia, tornar-se um super-herói.
Ele então dedicou-se de corpo e alma para esse objetivo e, constantemente, teve que lutar pela descrença e pelas tentativas de desmotiva-lo, que vinham, até mesmo, das pessoas que ele mais amava. Mas isso nunca o fez desistir, pois sabia que sua esperança, um dia, seria gratificada.
Felipe Cagno e Gustavo Borges, em 2014, assistiram uma palestra do escritor estadunidense Scott Snyder, onde ele disse que tudo que escrevia colocava algo pessoal e que todos roteiristas deveriam fazer o mesmo. Isso inspirou-os e, então, surgiu Escolhas, o mais recente trabalho de ambos.
 Cagno escreveu a história ao lado de Borges, depois fez o roteiro, enquanto seu parceiro ficou por conta da arte. Com tudo feito eles chamaram Cris Peter que trabalhou as cores de uma forma majestosa. E ficou pronto um dos mais fantásticos trabalhos independentes dos quadrinhos brasileiros.
Escolhas mexe com o brio de todo fã de super-heróis, pois o desejo de ser um personagem que ajuda as pessoas com seus poderes e inspira outras, sempre foi o que motivou um fã, principalmente na sua infância. Levar isso para a vida adulta como um objetivo de vida, torna-se algo motivador. Lógico que não de virar um super-herói, mas de não desistir dos seus sonhos, mesmo que tenham barreiras e obstáculos que tentem impossibilitar suas realizações. Felipe Cagno – acho eu – sempre desejou ser um grande roteirista e, hoje, têm trabalhos fantásticos como Lost Kids, 321 – Fast Comics e Os Poucos & Amaldiçoados (que já está em sua segunda campanha no Catarse). Não tenho certeza – também –, mas Gustavo Borges deve ter sonhado em realizar grandes trabalhos, daí então criou Morte Crens, Edgar e Pétalas, entre outros trabalhos. Cris Peter – vamos lá, novamente – deve ter pensado que seus trabalhos gráficos um dia deixariam sua marca no mundo, hoje ela já tem trabalhos de coloração em editoras estadunidenses do porte de Dark Horse Comics, Marvel Comics, além de realizar vários outros trabalhos junto com artistas brasileiros como Gabriel Bá, Fabio Moon, Gustavo Borges, entre outros. Isso, sem contar que podemos acompanha-la em seu site Cris Peter Digital Colors. Todos os roteiristas e artistas brasileiros vêm buscando isso, realizações com seus trabalhos e vêm desenvolvendo produções independentes, em geral, fantásticas. Eles têm uma forma de fazer isso, já que não contam com grandes indústrias de quadrinhos para lançar seus trabalhos, o site de apoio coletivo Catarse, onde Escolhas teve um apoio de 268%.
É maravilhoso vermos um trabalho tão bem feito, tão motivador sendo realizado, publicado e vendido em livrarias e lojas especializadas, tendo uma editora de livros apoiando, o que se torna um fato muito revelador, já que sempre é bem complicado e alguns artistas, as vezes, precisam criar suas próprias editoras para publicar seus trabalhos.

Escolhas é uma realização fantástica. Vou ser repetitivo, mas ela motiva qualquer um a acreditar em si mesmo e fazer o melhor para nunca desistir, acreditando em si, mesmo que os outros duvidem. 

sábado, 15 de julho de 2017

Cultura do Deslocado: Nerd, ser ou não ser?

Recentemente comecei a ler a obra de Douglas Adams, “O Guia do Mochileiro das Galáxias” e divulguei nas redes sociais. Logo veio o pessoal que há anos leu a obra e se manifestou, dizendo que eu não sou nerd, que finalmente decidi expandir minha cultura nerd para além dos quadrinhos e que ser nerd é um título dados pelos seus iguais.
Bem, eu sempre me senti um deslocado, que, pesquisando, descobri ser alguém fora de seu ambiente habitual, e é assim que eu me sinto, pois gosto de coisas que outros não costumam, principalmente na minha idade. Quadrinhos, seriados, filmes, livros, pôsteres, estatuetas, miniaturas, e por aí vai. Hoje gostar de uma boa parte dessas coisas se tornou pop, o que terminou descaracterizando a palavra deslocado. Com isso, decidi adotar o termo nerd, mas não por me considerar uma pessoa inteligente ou algo assim, mas por as vezes, me sentir excluído de determinados assuntos, pois meus interesses divergiam das outras pessoas.
Nunca gostei de futebol, algo totalmente popular no Brasil e que a maioria dos brasileiros ama acompanhar. Mesmo que torça por um time, nunca fui uma pessoa que conversa ou discute sobre quem está no time ou se ele tem ganhado ou perdido e os motivos dessa derrota. Nunca fui um afoito por esportes, pelo contrário, enquanto os outros jogavam futebol, vôlei, basquete, entendendo as complexas regras dentro desses esportes, eu ficava sentado em um canto, desenhando – ou, pelo menos, tentando – e criando personagens baseados nas histórias em quadrinhos que eu lia.
Nunca fui uma pessoa politizada. Sempre me senti excluído em conversas ou discussões políticas, pois sempre pensei – e ainda penso – que a política é um mal, as vezes necessário, que somente faz você discutir e, às vezes, menosprezar àquele que não tem o mesmo sentimento político que você. Quando estudei História, percebi que meus valores políticos estavam mais relacionados a uma ideia utópica Liberal, que constitui da liberdade sem restrições, em um enxugo do termo. Acredito que todos temos liberdade de nos expressarmos, desenvolver nossas ideias e coloca-las em prática, na medida do possível, pois somos indivíduos pensantes e racionalizamos o que fazemos. Lógico, isso é uma ideia e, como eu disse, utópica.
Nunca me aprofundei em grandes discussões sobre qualquer coisa. Meus poucos amigos sabem que quando tenho algo a expressar, digo a eles e pronto. Tento não ofender ninguém, pois não acredito que as palavras precisam ser ofensivas para fazer com que as pessoas reflitam. Sempre vejo grandes discussões como coisas maçantes e chatas. Cada um tem uma ideia sobre determinada coisa, não adianta tentar convencê-la do contrário.
Esse seria eu, uma pessoa que se expressa pouco, não muito afeiçoado a esportes, apolitizada – já que prefiro uma utopia do que os conceitos políticos da atualidade –, um deslocado social, mas aparentemente não um nerd.
Quando ocorreu, recentemente, o Dia do Orgulho Nerd, surgiu várias postagens nas redes sociais sobre isso e pessoas diziam que “você não pode se considerar um nerd se não leu ‘O Guia do Mochileiro das Galáxias’” (Sim, isso novamente). Quando achei estranho pessoas que colocavam aros/armações de óculos, sem lente, para fazer parte da tribo, usavam camisetas com estampas de super-heróis ou videogames ou seriados, para se sentirem identificados, mesmo que não tivessem ideia do que estavam usando, só queriam se sentir incluídos... INCLUIDOS!!! Mas o problema é que não desejam adquirir mais conhecimento, somente serem aceitos em um “universo” de deslocados. Isso me aborrece um pouco e, talvez, seja nesse ponto que os... nerds se sintam comigo por não ter lido ainda a obra de Douglas Adams.
O que acho mais interessante nisso é que se você for um trekker, fã de Star Wars, fã de séries de ficção científica, fã de Doctor Who, fã de seriados, DCnauta, Marvete, fã de quadrinhos, fã d’As Crônicas de Gelo e Fogo, fã d’O Senhor dos Anéis, fã de Harry Potter, fã de series de livros, jogam Mario Bros., Grand Theft Auto V, Plants vs. Zombies, fãs de games, que participam de Vampiro: A Máscara, Dugeons & Dragons,  e nunca terem lido a série de Adams, não são nerds. Recentemente, conversando com um amigo que otakus eram um novo tipo de nerd, ele surtou e disse que deixaria de ler mangás, pois não aceitava isso (foi mais ou menos isso).
Quando eu falo de nerds, eu tenho uma visão de um estilo de vida. Mas esse estilo de vida se divide em vários subestilos. Temos os fanboys, fandoms, Trekkers, gamers, otakus – sim, eles são um subestilo dos nerds –, geeks (em algumas culturas, é assim que se define o estilo de vida do deslocado), cinemaníacos, entre outros que eu não sei nomear. Só que a origem da palavra – como já havia mencionado mais acima – foi uma forma de definir pessoas que se diferenciavam por serem deslocadas, fora da realidade comum, mais inteligentes, mais dedicados aos estudos. E, ser qualquer dos subestilos acima, não os tornam necessariamente um nerd (ou geek, dependendo da sua realidade).
Tá, o dia 25 de maio, graças ao fãs de “O Guia do Mochileiro das Galáxias”, é considerado, oficialmente, como o “Dia da Toalha”, tornando-o como um dia onde vários fãs da obra de Douglas Adams podem celebrar. Essa data foi definida em 2001. O interessante é que, entre 1998 e 2000, o nova-iorquino Tim McEachern decidiu realizar comemorações em um bar de Albany, celebrando a data de estreia de “Star Wars: Episódio IV – Uma Nova Esperança”, primeiro filme da saga dos Skywalker. O filme estreou em 25 de maio de 1977. Somente, oito anos depois, o espanhol Germán Martínez realizou a primeira celebração no mesmo dia e chamou a atenção de todos, principalmente a mídia, para o Dia do Orgulho Nerd (ou Dia do Orgulho Geek). Coincidentemente, ambos os dias são correlacionados. Mas, pensando em um dia de comemoração para o “Dia da Toalha”, por que não escolherem o dia 05 de janeiro, quando estreou o primeiro episódio da série de TV “O Guia do Mochileiro das Galáxias” na BBC Two? Ou o dia 08 de março, dia da primeira transmissão do trabalho de Douglas Adams na BBC Radio 4? Ou o dia 11 de março, dia do nascimento de Douglas Adams? Ou o dia 12 de outubro, quando Pan Books lançou a primeira edição de “O Guia do Mochileiro das Galáxias” em Londres?
Lógico, quem sou eu para definir alguma coisa ou a realização de uma comemoração. Por exemplo, além de comemorarmos o lançamento da saga dos Skywalker em 25 de maio, também existe o “Star Wars Day”, comemorado em 04 de maio, pois faz um trocadilho com a frase em inglês “Que a Força Esteja Com Você” (May the Force Be With You), ficando “Que o 4 de Maio Esteja com Você” (May the 4th Be With You).
Outro caso é o Dia do Batman, comemorado no dia 17 de setembro. Essa data foi iniciada durante as comemorações de 75 anos do Batman, na ideia de celebrar sua primeira aparição na história “O Caso da Sociedade Química” (The Case of the Chemical Syndicate), publicada na Detective Comics #27. Eu me considero um batmaníaco e DCnauta (algo dentro dos subestilos fanboy e/ou fandom) e sei que a primeira aparição do Batman aconteceu em maio de 1939 (de acordo com pesquisas feitas, a revista Detective Comics #27 chegou às lojas em 18 de abril de 1939[1]), então por que a comemoração do Dia do Batman em setembro? Bem, nem a empresa DC Comics e ninguém mais sabe dizer o motivo, já que o primeiro episódio da série de TV estrelada por Adam West e Burt Ward estreou em 12 de janeiro de 1966[2], o filme “Batman”, estrelado por Michael Keaton e Jack Nicholson estreou nos cinemas estadunidenses em 23 de junho de 1989 (a première ocorreu em 19 de junho de 1989), a primeira cine série, estrelada por Lewis Wilson e Douglas Croft surgiu em 16 de julho de 1943, Bob Kane, o co-criador do Batman, nasceu em 24 de outubro de 1915 – o outro criador, Bill Finger, nasceu em 08 de fevereiro de 1914, dessa forma, por que, cargas d’água, comemorar em 17 de setembro de 2014 os 75 anos do Batman? Nem o aniversário do Bruce Wayne é em setembro, sendo considerado por alguns em 19 de fevereiro[3].
Não estou dizendo que o caso da comemoração do Dia da Toalha coincidir com o Dia do Orgulho Nerd seja o motivo de considerar somente nerds as pessoas que leram a obra completa, mas definir uma pessoa como nerd somente se ela tivesse lido o trabalho de Douglas Adams, que é uma adaptação dele próprio de um programa de rádio que ele criou, mas é o que parece.
Ok, eu não vou me considerar e nem referir a eu mesmo como nerd. Apesar de meu blog tem em seu título a palavra Nerd – isso eu não vou mudar, me desculpem – eu vou referir a mim mesmo como um fandom – talvez! – ou um fanboy – quem sabe! (por mais que eu odeie). Dessa forma, deixo aos verdadeiros nerds, que leram o trabalho de Douglas Adams, seu devido título... ah, e mesmo terminando de ler “O Guia do Mochileiro das Galáxias”, não vou me considerar um nerd, pois prefiro ser um DCnauta/Batmaníaco. Um abraço desse – constantemente – deslocado.

sábado, 8 de julho de 2017

RESENHA CINEMA: Homem-Aranha: De Volta ao Lar (Spider-Man: Homecoming, 2017).

HOMEM-ARANHA: DE VOLTA AO LAR (Spider-Man: Homecoming, 2017).

Direção: Jon Watts
Roteiro: Jon Watts, Jonathan Goldstein, John Francis Daley, Christopher Ford, Chris McKenna, Erik Sommers
Elenco: Tom Holland, Michael Keaton, Marisa Tomei, Jacob Batalon, Laura Harrier, Zendaya, Tony Revolori, Bokeem Woodbine, Michael Chernus, Robert Downey Jr., Jon Favreau,

A empresa de Adrian Toomes (Michael Keaton) havia sido contratada pela Prefeitura de Nova Iorque para assumir os danos causados pelas batalhas travadas entre os Vingadores e seus inimigos, mas a Agência de Controle de Danos, financiada pelas Indústrias Stark, assume o lugar deles, deixando-os sem serviços e fazendo-os investir em outro mercado, que se demonstrou mais lucrativo.
Enquanto isso, no subúrbio da Grande Maçã, o jovem Peter Parker (Tom Holland), descobre-se sendo convocado por Tony Stark (Robert Downey Jr.), o Homem-de-Ferro, e é levado para Berlim por Happy Hogan (Jon Favreau), onde ganha um novo traje e torna-se um novo aliado ao enfrentar o Capitão América. Quando retorna, Stark lhe deixa ficar com o traje e, com isso, o Homem-Aranha ganha um visual bem mais hi-tech. Só que os problemas mal começam e ele já tem de enfrentar novos inimigos e problemas que a cada momento demonstram o quanto grandes poderes trazem grandes responsabilidades.
O final desse resumo descreve o quão fiel os roteiristas e o diretor procuraram ser com a mitologia do Homem-Aranha. “Homem-Aranha: De Volta ao Lar” hoje, para mim, tornou-se o melhor filme baseado no Amigo da Vizinhança. Tem a ação certa, os momentos de humor são bem feitos, sem parecerem coisas empurradas para você engolir e dar aquela risadinha amarela.
Tom Holland demonstrou, mais uma vez, seu talento como ator. Ele está dinâmico e não exagera e não força uma timidez ou mesmo sua espontaneidade. Seu melhor amigo nesse filme, Ned Leeds – nos quadrinhos, Leeds é o Duende Macabro, um dos piores inimigos do Cabeça-de-Teia –, interpretado pelo ator Jacob Batalon dá a dosagem certa de amigo/parceiro/assistente. E não pensem que ele é a solução de todas as habilidades de Peter no filme, pelo contrário, a cada momento aparece a inteligência natural de Parker, seja dentro ou fora da sala-de-aula. E a participação de Tony Stark/Homem-de-Ferro? Ele somente aparece quando necessário. O personagem interpretado por Robert Downey Jr. serve como o “Grilo Falante” irônico. Ele está ali para mostrar ao Peter que ele não precisa se assemelhar a nenhum outro super-herói, mas ser ele mesmo. Que ele e mais capaz do que imagina.
Do lado do antagonista temos Adrian Toomes, o Abutre, interpretado pelo ator Michael Keaton, que já é bem conhecido do universo de super-heróis no cinema, graças a sua interpretação de Batman/Bruce Wayne nos filmes de Tim Burton. Keaton dá o tom de um vilão determinado, cujo o objetivo não é a destruição de ninguém, mas ganhar dinheiro. Ele é um ladrão, mas um ladrão avançado, que faz uso das mais altas tecnologias para conseguir o que deseja. Seus aliados, principalmente o Consertador e Shocker, interpretados por Michael Chernus e Bokeem Woodbine, respectivamente, têm os mesmos objetivos e aceitam seguir sobre sua liderança, sem questionar suas formas de condutas para conseguir o que deseja, as vezes fazendo-o se tornar ainda pior.
Já as participações de outros personagens se tornam bem coadjuvantes, como a Tia May Parker, interpretada pela belíssima e talentosa Marisa Tomei. Ela serve mais como uma ligação familiar de Peter, as vezes pronta para aconselhar o sobrinho quando ele precisa. As aparições de tia May são bem determinantes e pequenas. Já personagens como Flash Thompson, interpretado pelo ator Tony Revolori, que é um diferente bully nesse filme, Liz, interpretada pela atriz Laura Harrier, interesse romântico de Peter, e Michelle, interpretada pela atriz/cantora Zendaya, que é faz a colega mala de Peter, aparecem para compor o elenco e mostrar o quanto esse novo universo do Homem-Aranha poderá ser expansivo e diferenciado dos outros.

Não vou entrar em comparações desse filme com seu antecessores, pois cada ator deu sua visão do Homem-Aranha, bem como cada diretor e roteirista, também, mas com certeza “Homem-Aranha: De Volta ao Lar” é um excelente surpresa e supera todas as expectativas, trazendo-nos um Homem-Aranha que comporá o Universo Cinemático Marvel da forma como o personagem merece.

sábado, 3 de junho de 2017

RESENHA CINEMA: Mulher-Maravilha (Wonder Woman, 2017)

MULHER-MARAVILHA (Wonder Woman, 2017).

Direção: Patty Jenkins
Roteiro: Allan Heinberg
Elenco: Gal Gadot, Chris Pine, Connie Nielsen, Robin Wright, Danny Huston, David Thewlis, Said Taghmaoui, Lucy Davis, Elena Anaya, Ewen Bremner, Eugene Brave Rock, Lisa Loven Kongsli, Ann Wolfe, Ann Ogbomo, Florence Kasumba, Eleanor Marsuura, Josette Simon, Doutzen Kroes, Hayley Warnes, Samantha Jo, Brooke Ence, Madeleine Vall, Hari James, Jacqui-Lee Pryce, Lilly Aspell, Emily Carey.

Themyscira é uma ilha idílica que ainda vive com ideias e conceitos das sociedades gregas da antiguidade. Habitada pelas amazonas, guerreiras criadas pelos deuses, a ilha paradisíaca permanece escondida do resto da humanidade. A sua rainha, Hipólita (Connie Nielsen), governa suas “irmãs” da forma mais democrática possível, dando-lhes liberdade para fazerem o que desejarem. Sua filha, Diana (Lilly Aspell), a única criança entre as amazonas, deseja se tornar uma guerreira também e, escondida, treina com sua tia Antíope (Robin Wright). Quando atinge a idade adulta, Diana (Gal Gadot) resgata o piloto Steve Trevor (Chris Pine) de um acidente de avião e isso torna-se uma bola de neve, pois a ilha vê-se invadida por tropas germânicas e austro-hungaras. Dessa forma, as amazonas veem-se em uma batalha injusta, pois enquanto usam espadas, flechas e lanças, as tropas usam fuzis. Mas, mesmo com baixas, as amazonas saem vitoriosas. Trevor é submetido a uma corte e, após perceber o que ocorre com o mundo, Diana decide acompanha-la ao mundo do patriarcado, onde terá de enfrentar uma guerra sem proporções, mostrando que uma mulher pode fazer a diferença em um mundo tomado por homens.
Mulher-Maravilha é mais um passo no Universo Expandido DC nos cinemas. Depois de “O Homem de Aço” e “Batman vs. Superman: A Origem da Justiça”, nada melhor do que vermos a primeira grande guerreira da DC Comics, fechando a Trindade DC com excelência.
Diana já havia aparecido em “Batman vs. Superman: A Origem da Justiça”, mas poucos conhecem sua origem. Criada em 1941 pelo psicólogo William Moulton Marston (1893-1947) e o desenhista Harry George Peter (1880-1958) para a All Star Comics #8, ela foi concebida do barro e ganhou dons dos deuses olímpicos. Após salvar por Steve Trevor e apaixonar-se por ele, Diana deixa a Ilha Paraíso e vai ao mundo do patriarcado, aonde combate os nazistas, japoneses e italianos durante a Segunda Guerra Mundial.
Com o passar dos anos, a história da origem de Diana mudou um pouco. Na Era de Prata e Bronze, ela teve duas origens distintas e, após Crise nas Infinitas Terras, o escritor e desenhista George Pérez redefiniu a origem da Mulher-Maravilha seguindo mitos gregos. Manteve as ideias iniciais de Marston, introduzindo os conceitos de que as amazonas tinham uma maior ligação com as deusas gregas e pouca ligação com os deuses, com exceção de Hermes, que lhe concedeu o dom do voo. Em 2011, o escritor Brian Azzarello, também, deu sua ideia da origem da Mulher-Maravilha, usando a ideia de ela ter sido concebida pelo barro como uma farsa, pois ela era, na verdade, filha de Zeus e Hipólita.
Em 1975, o canal de TV ABC lançou a primeira série da personagem, estrelada pela ex-miss América Lynda Carter. Na primeira série, a Mulher-Maravilha encarava nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. Na segunda temporada, a série migrou para o canal CBS, onde ela foi trazida para transportada para a década de 1970, enfrentando espiões e inimigos mais atualizados. A série explorou bem o universo da personagem, pois nela conhecemos a Ilha Paraíso, o – famoso – jato invisível, o affair entre Diana e Steve Trevor, interpretado pelo ator Lyle Waggoner, e uma versão da Moça-Maravilha, interpretada pela atriz Debra Winger. Foram somente três temporadas, mas Lynda Carter continuou associada à personagem até a atualidade, tanto que, em constantes eventos ligados a Mulher-Maravilha, Carter é sempre convidada.
Um dos fatos mais interessantes da Mulher-Maravilha é sua longevidade nos quadrinhos.
Mesmo não sendo a personagem feminina mais antiga dos quadrinhos, Diana foi a que permaneceu mais tempo sendo publicada. Parte disso deve-se a sua popularidade, pois era uma das poucas personagens que conseguia se manter, mostrando as meninas que elas eram fortes e independentes. Mas outra parte vem de um acordo firmado entre Marston e a All-American Publications (hoje DC Comics). No acordo, a empresa nunca deixaria de ter uma publicação da personagem, não importando o que ocorresse. Dessa forma, a continuidade da Mulher-Maravilha é – quase – inédita, pois são mais de 75 anos de publicações.
O atual filme da personagem, dirigido por Patty Jenkins – mais conhecida por ter  dirigido e escrito o filme “Monster: Desejo Assassino”, com Charlize Theron (ganhadora do Oscar de Melhor Atriz nesse filme) e Christina Ricci – pega nuances desses mais de 75 anos de história da personagem. A história – escrita por Allan Heinberg, Zack Snyder e Jason Fuchs – dá uma pegada das origens da personagem nas mãos de Marston, mas também faz uso de elementos usados por George Pérez em 1985 e por Brian Azzarello em 2011. Alguns desses aspectos vêm de sua origem e seu inimigo principal, Ares, o deus da guerra.
Na mitologia grega, Ares foi o responsável pela criação original das amazonas. Ele que lhes deu o dom para guerrear e serem as melhores no que fazem e, por isso, eram constantemente desafiadas por outros guerreiros míticos como Héracles (ou Hércules) e Teseu. Na história do filme, temos uma concepção pessoal dos escritores da Batalha do Céu, tendo uma retratação de Ares como o demônio e as amazonas (anjos) foram criadas pelos Zeus (Deus) para combate-lo.
Dessa vez elas não foram exiladas em Themyscira por não terem mantido a paz, mas permaneceram existentes para que, caso Ares voltasse, elas pudessem combate-lo.
Detalhes sobre como Diana surgiu ficaram com explicações mínimas, mas parte do mito dela surgir do barro foi mantido – mesmo que não seja mostrado – foram mantidas, só que outros detalhes foram introduzidos.

Mulher-Maravilha é o quarto filme da DC Films e do Universo Expandido DC, que em novembro crescerá ainda mais com “Liga da Justiça”, mas isso é uma outra história.

domingo, 21 de maio de 2017

RESENHA CINEMA: Rei Arthur: A Lenda da Espada (King Arthur: Legend of the Sword, 2017)

REI ARTHUR: A LENDA DA ESPADA (King Arthur: Legend of the Sword, 2017).

Direção: Guy Ritchie
Roteiro: Joby Harold, Guy Ritchie, Lionel Wigram, David Dobkin
Elenco: Charlie Hunnam, Jude Law, Astrid Bergés-Frisbey, Djimon Hounsou, Aidan Gillen, Kingsley Ben-Adir, Tom Wu, Neil Maskell, Craig McGinlay, Freddie Cox, Bleu Landau, Eric Bana, Annabelle Wallis, Poppy Delevingne

As lendas arturianas datam de séculos atrás. Algumas fontes citam histórias do século VI, outras do século X, que são chamados de Tradições pré-galfrínicas.
Em 1138, o clérigo britânico Geoffrey de Monmouth finaliza sua obra latina Historia Regum Britanniae e nela introduz a lenda de Arthur. Nela ele conta como seu pai, Uther Pendragon, com auxílio do bruxo Merlin, disfarça-se de seu inimigo e tem relações sexuais com Igraine, mãe de Arthur. Após a morte de Uther, Arthur, aos quinze anos, assume o trono do pai e, ao lado dos aliados, combatem todos aqueles que desejam tomar a Grã-Bretanha.  Quando Arthur e seu companheiro derrotam o imperador Tiberius na Gália e partem para tomar Roma, o sobrinho dele, Mordred, toma seu trono e casa-se com sua esposa, Guinevere, fazendo Arthur voltar à Grã-Bretanha e combate-lo. Durante a batalha, Arthur é mortalmente ferido e passa seu trono para Constantino e é levado para Avalon, onde seria cuidado de suas feridas e nunca mais seria visto.
Vários romancistas fizeram uso das lendas arturianas para escreverem suas próprias histórias. Algumas vezes, Arthur era visto somente como um personagem de fundo, marginalizado na maioria das vezes, idealizador, sonhador de uma sociedade impossível. Alguns o viam como um rei destituído de emoção ou mesmo um rei bufão, incapaz de decidir ou discernir por si próprio, bem diferente das suas retratações das tradições pré-galfrínicas e da obra de Monmouth, que o tratavam como um guerreiro capaz de qualquer ato para conseguir o que desejava e ria diante dos inimigos. Esses “novos romances” somente faziam uso do fim de Arthur contra Mordred.
Em 1485, Sir Thomas Malory viria a escrever a obra Le Morte D’Arthur, juntando o trabalho de Monmouth e vários outros relatos e romances franceses e ingleses para narrar o nascimento de Arthur, sua ascensão ao trono, seu reinado, a perda de sua esposa, Guinevere, para seu melhor cavaleiro, Lancelot, sua derrota para Mordred, a busca pelo Graal, sua última batalha e a morte. Na obra de Malory temos, além dos já citados, Merlin, Kay, Bedivere, Percival, Gawain, Garreth, Tristão, Morgana, e todos os membros da Távola Redonda. Foram, no total, 21 livros para contar toda a lenda de Arthur.
A obra de Malory serviu como fonte de várias outras obras literárias, como a obra de T.H. White, “O Único e Eterno Rei” e “Idílios do Rei” de Alfred Tennyson. Da obra de White surgiu o musical “Camelot” do compositor Alan Jay Lerner.
Cada um desses trabalhos viriam a inspirar outras formas midiáticas como o cinema, de onde saíram trabalhos como a animação da Disney, “A Espada Era a Lei” (1963), “Camelot” (1967), “Excalibur” (1981), Morte d’Arthur (1984) e a série de TV “Camelot” (2011). Além do cinema, a lenda de Arthur também inspirou animês como Rei Arthur (Entaku no kishi monogatari: Moero Arthur), criado por Kensyo Nakano, Mitsuru Majima, Sukehiro Tomita e Tsunehisa Ito para a Toei Animation em 1979. As tiras de quadrinhos de “O Príncipe Valente”, criado por Hal Foster em 1937. A obra de fantasia “As Brumas de Avalon”, escrita por Marion Zimmer Bradley em 1983. A série de quadrinhos da DC Comics, Camelot 3000, escrita por Mike W. Barr e desenhada por Brian Bolland, entre 1982 e 1985. Além de várias pesquisas sobre a origem de um verdadeiro Arthur. Esses estudos levaram ao filme “Rei Arthur” (2004), escrito por David Franzoni e dirigido por Antoine Fuqua.
Para muitos, a obra de Monmouth pareceu esquecida graças aos outros trabalhos desenvolvidos com Arthur Pendragon, mas “Rei Arhur: A Lenda da Espada” parece trazer de volta alguns fatores dessa obra secular.
No novo filme vemos um personagem da obra de Monmouth, Vortigern (Jude Law), há muito esquecido, como substituto de Uther (Eric Bana) no trono. Percebe-se que ele tomou o trono e não pretende entrega-lo ao herdeiro legítimo, Arthur (Charlie Hunnam), que, em seus anos de clandestinidade aprendeu a lutar sozinho da melhor forma que poderia. Quando Excalibur surge, Arthur é caçado, então ele juntasse a resistência, liderada por Sir Bedivere (Djimon Hounsou), para conquistar seu objetivo.
 A ação do filme é muito imediata e qualquer coisa que venha a revelar fora desse enredo, poderia dar spoilers. Mas muito do filme fica em torno de Arthur e Excalibur, dando um bom motivo para o título do filme.
A aparência do filme é que muito do trabalho nele vem de uma influência dos atuais filmes de super-heróis. Mas também se percebe um constante uso de vários aspectos que Guy Ritchie usara, anteriormente, em seus filmes, como as sequências de time bullett e a câmera como aspecto da cena, usados em “Sherlock Holmes” (2009) e “Sherlock Holmes: O Jogo de Sombras” (2011).
Falar de “Rei Arthur: A Lenda da Espada” precisava dessa introdução sobre as lendas de Arthur Pendragon, pois somente assim para compreender o filme que entrou em cartaz no Brasil em 18 de maio, já que foge bastante de qualquer outra influência anterior.

“Rei Arthur: A Lenda da Espada” se torna um filme único dentro de todos os filmes baseados nas lendas arturianas, pois pega base aspectos anteriores aos romances escritos a partir do século XV, colocando Arthur guerreiro determinado e com uma vontade pouco vista em outras obras cinematográficas. Arthur toma a frente, como visto poucas vezes.